László Krasznahorkai acaba de ser anunciado como vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2025. Aqui no Brasil conhecemos uma de suas obras mais impactantes, Sátántangó, traduzida e publicada em português pela Editora Companhia das Letras.
Publicado originalmente em 1985, Sátántangó é o romance de estreia de Krasznahorkai e já revela o estilo que o consagraria como um dos grandes nomes da literatura europeia pós-moderna: frases longas e sinuosas, atmosfera opressiva e uma visão profundamente pessimista da condição humana.
A obra se passa em uma aldeia rural decadente na Hungria comunista, onde o tempo parece ter parado, e a vida se arrasta em meio à lama, à miséria e ao tédio.
O romance gira em torno de um grupo de camponeses que vivem num conjunto de casas isoladas após o colapso de uma cooperativa agrícola. A esperança, praticamente extinta, renasce quando circula a notícia de que Irimiás, um antigo morador dado como morto, estaria voltando à vila.
Irimiás, carismático e manipulador, assume contornos quase messiânicos — ou demoníacos — ao convencer os habitantes de que há um futuro melhor à espera deles.
A narrativa é dividida em doze capítulos dispostos como os passos de uma dança (o “tangó” do título), alternando avanços e retrocessos temporais, mostrando os mesmos acontecimentos sob diferentes perspectivas, num movimento hipnótico de repetição e engano.
A marca mais distintiva de Sátántangó é sua prosa labiríntica, composta por parágrafos extensos e frases que se estendem por páginas inteiras, sem respiro.
Krasznahorkai escreve como quem encena o colapso da própria linguagem: o fluxo verbal é contínuo, mas o mundo que descreve está em decomposição.
No cerne do romance está a desintegração moral e espiritual de uma comunidade à deriva. O retorno de Irimiás encena uma farsa messiânica: os camponeses, movidos pela fome e pela fé cega, depositam nele suas últimas esperanças — apenas para serem conduzidos à ilusão e à ruína.
O livro foi adaptado para o cinema em 1994 por Béla Tarr, em um filme de mais de sete horas de duração, considerado uma das maiores obras do cinema contemplativo.
Sátántangó é um romance sobre a esperança como ilusão e a miséria como condição permanente. Denso, labiríntico e fascinante, transforma a ruína num espetáculo literário e revela Krasznahorkai como um escritor que ousa encarar o abismo — e descrevê-lo com beleza.